• 1.png
  • 3.png
  • 4.png
  • 5.png
  • 6.png
  • 7.png
  • 8.png
  • pe2.png



Notícias Diocese São Luis

Os novos modelos de família e os desafios para a formação


Os novos modelos de família e os desafios para a formação

 

THE NEW FAMILY MODELS AND CHALLENGES FOR TRAINING TODAY

 

Edinaldo Silva Rosa[1]

 

Resumo: Este artigo é resultado de avaliações e acompanhamentos durante os encontros vocacionais, visitas realizadas em casas de vocacionados, admissões de seminaristas no seminário e também em pesquisas realizadas em livros e artigos publicados por profissionais que desenvolvem trabalhos dentro do ambiente eclesial. Também serão utilizados os principais documentos do Magistério da Igreja e da Conferência Episcopal sobre o assunto. O objetivo é tornar notável à sociedade e à Igreja, as mudanças ocorridas nas estruturas das famílias dos tempos atuais, as consequências que isso traz para a formação dos novos presbíteros e procurar meios para ajudá-los a corrigir algumas deficiências que podem influenciar na personalidade destes formandos. Cientes destas realidades, o magistério da Igreja apresenta as ferramentas para lidar com estas situações, que é investir na formação de seus formadores.

 

Palavras-chave: Família. Formador. Formando. Mudanças.

 

Abstract: This article is the result of evaluations and follow-ups during the vocation meetings, visits aimed at houses, seminarians at the seminary admissions and also in research in books and articles published by professionals who develop work within the ecclesial environment. The goal is to make remarkable society and the Church, the changes in the structures of families of times today, and the consequences this brings to the formation of new priests and look for ways to help them to correct some deficiencies that may influence personality these seminarists. Aware of these realities, the Magisterium of the Church has the tools to deal with these situations, that is to invest in training their rectors.

 

Keywords: Family. Rector. Seminarist. Changes.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

O artigo, Os novos modelos de família e os desafios para a formação, foi elaborado seguindo os seguintes métodos: trabalho de pesquisa de campo realizada com jovens vocacionados, durante uma semana de convivência vocacional; pesquisas em documentos da Igreja que abordam temas referentes formação de novos presbíteros; e também aulas teóricas, fruto de uma experiência de estudos com professores e alunos do Instituto Santo Tomas de Aquino, em Belo Horizonte, durante três módulos de estudos.

A partir de levantamento de dados teóricos e práticos que foi possível conduzir a pesquisa que resultou neste trabalho, que servirá de instrumento para trabalhar na formação de candidatos a vida presbiteral.

 

2 OS NOVOS MODELOS DE FAMÍLIAS

 

A família, desde o início da humanidade, tem sido reconhecida como pilar principal da sociedade e esta exerce forte influência na formação do indivíduo, desde a fase inicial até a fase adulta. É na família que se encontra todo o referencial de valores, costumes, crenças e comportamentos. Portanto, o equilíbrio ou o desiquilíbrio de um indivíduo tem forte influência do ambiente familiar que este convive, bem como a sua maturidade humana e psicológica, que o torna capaz de assumir um compromisso para toda a vida.

A expressão “novos modelos de família”, a algumas décadas atrás, era pouco conhecida e comentada, porque dominava quase que exclusivamente um único modelo de família, a família tradicional, composto pelo pai, pela mãe e pelos filhos. Hoje, devido a alguns fenômenos sociais como o divórcio, óbito, abandono de lar ou adoção de criança por uma só pessoa ou por casais homossexuais, ou por motivo econômico, por exemplo, por questões de migração, fugindo de guerras ou a procura de trabalho em outros países, surgem novas ‘organizações’ da família, isto é, diminui-se de forma expressiva aquele modelo de família considerada tradicional, dando lugar a novos arranjos na estruturação da família.

Depara-se com frequência, com famílias sem a figura paterna, ou sem a figura materna ou, em outros casos, sem a referência paterna e materna, deixando a responsabilidade da criação e educação a cargo dos avós, de parentes, pessoas com parentescos distantes e até mesmo sem qualquer parentesco. Numa pesquisa[2] realizada com vinte e seis adolescentes e jovens vocacionados, comprovou-se que 30,76% destes, moram somente com o pai ou com a mãe, porque os pais são separados e 3,84% moram com os avós ou outros parentes. Surgem arranjos familiares das mais variadas formas de estruturação e que com esses dados considerados significantes, a Igreja tem que ficar atenta para a formação destes. De acordo com Raquel Moreira:

 

A estrutura das famílias atuais apresenta-se muito diferente daquela da idade média, o que, todavia, não significa dizer que a família esteja se “estilhaçando” na atualidade. As mudanças ocorridas nas estruturas familiares deve-se a inúmeros fatores sociais e, entre eles, a própria industrialização. Com isso, o aumento do número de filhos de pais divorciados e de relações extraconjugais, ou mesmo de famílias onde o papel de pai e mãe é desempenhado por apenas um (na maioria das vezes, as mães) é bastante comum (MOREIRA, 2014, p. 39).

 

Sem dúvida que essas novas formas de composição familiar trazem consequências devastadoras para a sociedade atual. O esfacelamento de parte da família no padrão tradicional, que era moldada pelos valores religiosos, morais, culturais etc., fez com que outros contra valores se instaurassem na sociedade: o individualismo, crises de fé, perda da figura do pai como o líder da família e a mãe muitas vezes não assume seu papel de educadora e presença constante.

Segundo o Papa Francisco em sua exortação apostólica “Amoris Laetitia[3]” (2016, n.32-33), as mudanças antropológico-culturais têm influenciado fortemente as pessoas. Ele apresenta duas consequências perigosas dessas mudanças: os indivíduos são menos apoiados do que no passado pelas estruturas sociais na sua vida afetiva e familiar; outra questão é o individualismo exagerado que desvirtua os laços familiares e acaba por considerar cada “componente da família como uma ilha”.

Percebe-se que a estrutura da família, herdada de décadas passadas, não muito distantes, é bastante diferente da família atual. Para Raquel Moreira:

 

Aquela, era nuclear, heterossexual, monógama e patriarcal. O pai era o seu chefe, o gerente, a honra e o próprio nome da família. Os interesses da família sempre prevaleciam sobre os de seus integrantes de forma individual. As mulheres e os filhos eram considerados subordinados ao pai, chefe da família. As mulheres tinham sua função limitada à fidelidade ao marido e à criação dos filhos. Os filhos, por sua vez, subordinavam-se aos interesses da família, submetendo suas escolhas profissionais e amorosas aos interesses e necessidades da família (MOREIRA, 2014, p. 39).

 

O individualismo muitas vezes é consequência da ausência da figura que tem a função de integrar a família, que são os pais. Quando estes estão separados, fica um vazio, perde o elo que deveria ser o instrumento de integração, aglutinação e comunicação dentro da família. Então, corre-se o risco da pessoa tomar atitudes individualistas, isto é, convém aquilo que está dentro de seu mundo e de acordo com seu interesse.

Com o crescente aumento dos divórcios e separações, a possibilidade de instaurar uma crise de fé, é muito maior, isso porque os filhos podem perder a referência do religioso como instituição, por não ter dentro de casa o exemplo a ser seguido de participação, de comunhão de motivação que cada criança e adolescente precisam ter para dar os primeiros passos à Igreja, isto é, crescem psicologicamente e religiosamente imaturos. Essa crise de fé pode ter pelo menos duas consequências negativas: por um lado, o fim da fidelidade religiosa, isto é, busca-se uma religiosidade sem vínculo com uma instituição, se sente livre para mudar sempre, de acordo com a necessidade, transita em diferentes igrejas e escolhe aquilo que está precisando; por outro, de acordo com a CNBB[4]:

 

O secularismo, que estabelece uma oposição entre os valores humanos e os divinos, atribui ao homem à responsabilidade exclusiva por sua história. Trata-se de uma concepção do mundo, segundo a qual esse mundo se explicaria por si mesmo, sem ser necessário recorrer a Deus; Deus se tornou supérfluo e embaraçante. Tal secularismo, para reconhecer o poder do homem, acaba por privar-se de Deus ou mesmo por renegá-lo. [...] em conexão com esse secularismo ateu, nos é proposta todos os dias, sob as formas mais diversas, uma civilização de consumo, o hedonismo erigido em valor supremo, uma ambição de poder e de predomínio, discriminações de toda espécie, enfim, uma série de coisas que são outras tendências inumanas desse humanismo (CNBB, 2010, n. 26).

 

Este comportamento, fundado no secularismo e na indiferença religiosa, tende a produzir na família ou na pessoa, uma conduta social baseada no relativismo ético, isto é, não existe pecado, tudo que convém e proporciona prazer é permitido, “sem escrúpulos vigora mais e mais a ética da situação, a ética do sentimento, fruto de um subjetivismo exacerbado” (CNBB, 2010, n. 26), deixando de lado a moral e a ética cristã.

A emancipação da mulher, em seu trabalho fora do lar, devido às transformações técnicas, sociais, políticas, tem influenciado nos hábitos, valores e costumes das famílias. A necessidade de ausentar, para buscar a sustentação do lar ou auxiliar na complementação do orçamento, tem causado reflexos negativos para a formação da família. A CNBB afirma que:

 

A rejeição, a redução e o abandono dos filhos; as falhas dos pais na responsabilidade de educadores; a negligente omissão paterna, que deixa à mulher o inteiro cuidado para o sustento e educação dos filhos, o que gera graves prejuízos na formação e desenvolvimento das suas personalidades (CNBB, 2010, n. 22).

 

Enfim, todas essas problemáticas, refletem depois em jovens e adultos desestruturados, isto é, com graves prejuízos para a formação nos seminários. Desta forma, geralmente, estão chegando os candidatos ao ministério ordenado e isso exige da Igreja, principalmente dos formadores, uma maior compreensão dessa realidade e uma capacidade para tralhar esses novos desafios dentro dos seminários.

A Exortação Apostólica Familiaris Consortio[5] (1982, n. 6), afirma que nos países em desenvolvimento, ou chamado terceiro mundo, falta muitas vezes, às famílias, os recursos fundamentais para sobrevivência, como alimentos, moradia, escolas, medicamentos entre tantas outras coisas básicas e isso torna necessário aos pais procurar trabalho em lugares distantes ou em outros países, ou, ainda, se sujeitando a longa jornada de trabalho, significando, portanto, pouca dedicação aos filhos e, consequentemente, graves prejuízos na formação e educação destes.

Diante dessa situação colocada pelo Papa, pode acontecer também que a família acaba transferindo para a escola a responsabilidade de cuidar e educar seus filhos, em todos os aspectos, esquivando-se assim, da responsabilidade que seria propriamente dos pais. Assim também, podem delegar ao seminário aquela formação que não conseguiram transmitir aos seus filhos como acontecia antigamente, onde o seminário era um lugar barato para que os filhos de pessoas sem condições estudassem. Parece que hoje essa realidade começa a retornar, principalmente para os pais que não aguentam mais terem seus filhos dentro de casa.

 

3 O PAPEL DO FORMADOR DIANTE DESSAS SITUAÇÕES E AS PROPOSTAS DA IGREJA

 

Surge um grande desafio para os formadores, nos seminários, quando se deparam com vocacionados vindos de famílias resultantes desses novos arranjos familiares, isto é, que não estão dentro do padrão tradicional de família.  E hoje essa realidade está muito presente nos seminários. Essas situações onde seminaristas ou vocacionados à vida religiosa, vem de família sem a referência do pai ou da mãe e até mesmo sem as duas referências, já é muito notável. A exemplo de Jesus, a Igreja deve acolher, como acolheu a samaritana (cf. Jo 8,10-11) e o cobrador de impostos (cf. Mc 2,13-14) e proporcionar meios para uma formação saudável, respeitosa, madura, fundamentada numa verdadeira experiência de fé e em um encontro profundo com Jesus Cristo. O formador tem que ajudar o formando a desenvolver suas qualidades, potencialidades, porque este se encontra em fase de construção de sua personalidade. Além de vir de uma experiência, muitas vezes, com deficiência na aprendizagem, de acordo com a CNBB:

 

Parte dos vocacionados e seminaristas padecem as consequências de uma aprendizagem deficiente, advindas do sistema educacional do país, da falta de oportunidade em seu ambiente de origem e dos limites de seu desenvolvimento psico-físico. “Sem hábito de estudo, leitura e reflexão, com dificuldades para raciocinar, ler e redigir textos necessitam de ajuda sistemática para cultivar a leitura e redação, para fazer síntese e pensar em meio à complexidade do mundo de hoje” (CNBB, 2010, n. 39).

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sente a necessidade de investir em bons formadores e em um projeto formativo pedagógico e mistagógico que permita, ao formando, construir sua solidez como pessoa humana e cristã, desconstruindo os complexos e traumas adquiridos durante a vida.

Entre os elementos principais constitutivos da formação destacam-se cinco, a saber:

 

  1. A dimensão humano-afetiva, que tem como prioridade o amadurecimento da personalidade do vocacionado; aprimorando a sua formação humano-afetiva; dando uma atenção mais personalizada a cada candidato ao presbiterado com psicoterapia e dinâmicas de grupo; dar suporte para que possa se autoconhecer, perceber seus limites e defeitos; orientá-lo sobre sua sexualidade; equilíbrio no relacionamento interpessoal; ajudá-lo na formação de sua consciência e caráter.
  2. A dimensão comunitária é uma tentativa de iniciá-lo e aprofundá-lo na vida comunitária; busca de superação às tendências de isolamento e individualismo; formá-lo para a prática de acolhida, abertura, partilha, solidariedade; proporcionar uma experiência de trabalho em grupos e convivências; superar os apegos pessoais; fazer reconhecer as qualidades alheias; seriedade nos compromissos assumidos com os outros e com a comunidade.
  3. A dimensão espiritual tem como objetivo aprofundar o formando, numa experiência de Deus e de amizade com Jesus Cristo, através da consciência da vocação batismal, da celebração diária da Eucaristia; exercícios espirituais, direção espiritual; devoção mariana; participação em acontecimentos importantes para a vida da Igreja; noção de liturgia e espiritualidade; conhecimento e aprofundamento dos dogmas da Igreja, etc.
  4. A dimensão intelectual visa complementar a formação (humana e científica) do ensino médio; introdução à filosofia; metodologia de estudo; leitura e aprendizagem; aperfeiçoamento da língua vernácula; aperfeiçoamento de uma língua estrangeira moderna; noções básicas de ciências sociais, história, geografia e política, cultura brasileira, economia; administração paroquial; formação da consciência crítica da realidade; conhecimentos básicos de música, teatro, artes sacras.
  5. A dimensão pastoral-missionária é uma forma de iniciar o candidato para uma compreensão da Igreja e do ministério presbiteral, preparando-o para uma vida de igreja, na abertura para a missão; preparando-o para atuar na comunidade eclesial; introduzi-lo no conhecimento da pastoral orgânica eclesial; mostrá-lo aos desafios das diversas pastorais; fazê-lo conhecer as diversas experiências do povo; inseri-lo com afinco nas realidades da sociedade onde a Igreja está inserida (CNBB, 2010, n. 134).

 

Com essas diretrizes, a Igreja quer acolher e proporcionar uma melhor formação para os seus candidatos ao presbiterado, para que munidos desses elementos possam desempenhar bem o seu ministério.

 

4 ALGUNS DOS PRINCIPAIS DOCUMENTOS DA IGREJA QUE TRATAM DA FORMAÇÃO NOS SEMINÁRIOS

 

A Igreja baseia-se em alguns documentos do magistério para aplicar na formação dos candidatos ao presbiterado. De forma breve, serão citados alguns destes documentos e os pontos mais importantes que estes abordam.

O Código de Direito Canônico (CIC[6]), nos cânones 232 a 264 trata exclusivamente sobre os deveres e as normas estabelecidas nos seminários e casas de formação. Inicia-se dizendo que “é dever e direito próprio e exclusivo da Igreja formar os que se destinam aos ministérios sagrados” (cân. 232). O documento destaca que o papel de formar novos presbíteros compete ao bispo, reitor, equipe de formação, que envolve: diretor espiritual, confessor, psicólogo, professor. Estes, unidos ao Bispo, têm a grande missão de contribuir para a formação. Além do mais, a própria comunidade dos fieis tem a missão de incentivar as vocações (cf. cân. 233) e trabalhar por elas, bem como rezar ao senhor da messe que mande mais vocações.

O CIC destaca alguns pontos tidos como fundamentais para a formação, tais como: criação e conservação de seminários Menor e Maior (cf. cân. 234 e 237); formação doutrinal, espiritual e intelectual dentro dos seminários (cf. cân. 240-247); a necessidade da formação filosófica e teológica para os seminaristas (cf. cân. 250-252); uma atenção especial para a escolha da equipe de formação e, principalmente, aos professores (cf. cân. 253-254).

O documento conciliar Optatam Totius[7] afirma que é dever de todos os fieis fomentar as vocações (cf. OT, n. 2); reforça a necessidade da formação intelectual e espiritual nos seminário menores e maiores e uma boa escolha dos professores e superiores (cf. OT, n. 3-4); a importância da filosofia e da teologia nas casas de formação (cf. OT, n. 13-18); acrescenta também a importância de uma educação para o “espírito missionário” e a prática pastoral fora do seminário como forma de engajamento e troca de experiência com a comunidade (cf. OT, n.  19-21); finaliza ressaltando a formação permanente do clero como uma forma gradual de introduzir o jovem padre na vida sacerdotal e na atividade apostólica, proporcionando a ele, formação sob os aspectos intelectual, pastoral e espiritual (cf. OT, n. 22). A formação permanente é tão importante quanto a formação realizada no período de seminário.

A Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores Dabo Vobis[8] aborda a formação dos sacerdotes nas circunstâncias atuais. É no capítulo V, que o documento trata diretamente sobre o assunto. Enumera-se, como nos outros documentos anteriores, alguns pontos fundamentais para a formação do presbítero, como as quatro dimensões da formação: a formação humana, ressaltando que esta é de suma importância na missão desempenhada pelo sacerdote; “para que o seu ministério seja humanamente credível e creditável, é necessário que modele a sua personalidade humana de modo a torna-la ponte e não obstáculo para os outros, no encontro com Jesus Cristo, redentor do homem” (PDV, n. 43); outra dimensão fundamental e indispensável é a espiritual, porque segundo o documento Pós-Sinodal, “pela simples razão: o homem está aberto ao transcendente, ao absoluto” (PDV, n. 45), além do mais, a formação espiritual é uma ferramenta preciosa para que o formando possa aprender a fazer uma profunda experiência com Deus e possa ajudar a outros a experimentar essa experiência; outra dimensão ressaltada é a intelectual, porque, segundo os padres sinodais, a própria natureza do ministério ordenado manifesta essa urgência nas atuais circunstâncias da evangelização (cf. PDV, n. 51); a última dimensão, é a pastoral, que tem como objetivo, inserir o candidato no meio dos fieis, para que assim possa imitar Cristo, Bom Pastor, “dispô-lo, de modo particular para comungar Cristo na caridade” ( cf. PDV, n. 57).

Os bispos também tratam neste documento sobre os lugares da formação, sendo o Seminário menor e o Seminário maior como o lugar, não único, mas ideal, privilegiado, onde os formandos possam fazer o encontro profundo com Cristo e desenvolver suas potencialidades para imitar o Bom Pastor, no cuidado e zelo pelas suas ovelhas. O capítulo finaliza dizendo que os protagonistas da formação são os bispos, a própria comunidade do seminário, os professores, a comunidade de origem, as associações e movimentos juvenis e o próprio candidato (cf. PDV, n. 65-69).

A Congregação para Educação Católica - CEC[9] - apresenta um valioso documento, Orientações para a utilização das competências psicológicas na a admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio, que coloca a Igreja como responsável pelo discernimento vocacional, pois a vocação vem de Deus e passa pela Igreja. Portanto, o bispo, como representante de Cristo, se torna o principal responsável pela formação (cf. CEC, n. 1). Essa vocação, suscitada dentro da Igreja, tem como finalidade, ajudar o formando a crescer em todos os aspectos humano e para a edificação e contínua construção do reino de Deus (cf. CEC, n. 2). Apesar de não termos apreendido o Reino de Deus como um conceito ou conteúdo, convém lembrar que este Reino foi o ponto chave da pregação de Cristo. A partir dele, Cristo desenvolve toda a sua missão. Ele assume, de forma radical, o projeto do Pai como sendo o seu projeto. Jesus fala com tanta segurança que nos leva a pensar que tal projeto se remonta a Ele. Assim o formador deve levar o formando a ter o Reino de Deus como dele e não como um projeto apenas de Cristo.

O documento ressalta a importância na escolha do formador: que este seja “um bom conhecedor da pessoa humana”, que seja um homem de sensibilidade e boa preparação psicológica para agir de maneira razoável na admissão e demissão de candidatos (cf. CEC, n. 3-5). Neste contexto formativo, as ciências psicológicas também ocupam um espaço importante, porque pode oferecer uma diagnose sobre alguma patologia, como também uma eventual terapia dos distúrbios psíquicos e, ao mesmo tempo, apoiar o formando “no desenvolvimento das qualidades humanas” (CEC, n. 5). O texto também salienta a importância do diretor espiritual e do confessor como auxiliadores no processo de formação do futuro presbítero (cf. CEC, n. 5).

Cabe a Igreja o dever de verificar a presença de qualidades e dificuldades que cada candidato tem. “É direito e dever da instituição formativa em adquirir conhecimento necessário para fazer um juízo prudentemente certo sobre a idoneidade do candidato”, deixando sempre claro, que não se deve expor a intimidade da pessoa, pois todos têm o direito a boa fama, como nos fala o CIC, cân. 220. Essa averiguação tem que ser com o consentimento do candidato (cf. CEC, n. 11-12). Por isso, é importante que o formador faça visitas para conhecer bem a realidade da família, da comunidade, como foi o despertar vocacional do candidato, antes dele ingressar no seminário, principalmente se tinha uma vida de participação na comunidade paroquial.

O texto conclui falando sobre os seminaristas egressos, isto é, daqueles que já estiveram em outros seminários ou casas de formação. Salienta que antes de readmiti-los, é necessário procurar as devidas informações sobre o motivo da despensa ou sua voluntaria saída da antiga instituição (cf. CEC, n. 16). A esse respeito, a OSIB[10], reunida na ampliada da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada - CMOVC, em Salvador-BA, de 17 a 21 de outubro de 2016, escreveu uma carta a todos os Bispos e formadores do Brasil, onde diziam:

 

viemos manifestar nossa preocupação no que diz respeito à admissão de candidatos (as) egressos oriundos de outros seminários  e institutos de formação presbiteral e/ou vida consagrada. Em nossos momentos de partilhas, foram relatados episódios em que alguns destes candidatos (as), depois de terem sido desligados dos respectivos seminários ou institutos, tendo em vista sua avaliação negativa, foram admitidos em outra diocese Instituto de vida consagrada ou associações de fieis (novas comunidades), sem as devidas informações, segunda a norma vigente, mesmo diante da contrariedade dos formadores (OSIB, 2016).

 

A Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil, apresenta um precioso documento que trata sobre a formação dos candidatos ao sacerdócio, intitulado Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil. Este documento se fundamente em diversos documentos da Igreja, principalmente nos que foram destacados anteriormente, trazendo a fundamentação dos documentos pontifício para uma linguagem muito próxima da realidade formativa do Brasil, com uma clara e objetiva explanação de como se deve direcionar a formação em nossos seminários no atual contexto da formação e na atual realidade em que vive a Igreja.

Na primeira parte o documento aborda temas como os desafios no contexto atual, os fundamentos teológicos da formação presbiteral e o processo formativo. O texto diz que “o objetivo geral da formação dos candidatos à vida presbiteral e da formação permanente dos presbíteros é leva-los a ser santos” (DFPIB[11], n. 84).

É inegável o valor desses documentos do Magistério, que tratam sobre a formação dos futuros presbíteros. Eles são ferramentas nas mãos do formador, para ajudá-lo e orientá-lo na missão de formar pessoas para o ministério ordenado. Através destes aparatos, o formador adquire suporte técnico e jurídico para conhecer os direitos e deveres e desenvolver bem seu ofício de ‘formar pessoa humanas’, para encaminhar os fiéis ao Divino.

Para esse motivo, se faz mister, que o formador tome conhecimento de todos esses documentos e que, nas reuniões de formadores e da OSIB, discutam sobre os caminhos da formação e como colocar em prática essa riqueza que a Igreja nos oferece através dos seus documentos. É necessária, também, a formação permanente dos formadores.

 

5 HUMANIZAR O VOCACIONADO

 

O ser humano é um ser inacabado e, se é saudável, está ciente de sua imperfeição, de seus limites e inconclusão. Portanto, é missão do formador, ajudar o formando a tomar consciência de que precisa diariamente deixar-se humanizar. Humanizar é ter uma concepção clara do tipo de pessoa que queremos ser e construir, isto é, como o candidato ao presbiterato vai se descobrindo e se entendendo como um ser humano.

A pessoa que vive determinados valores como a empatia, a solidariedade, o cuidado, a misericórdia, sem dúvida, está sendo humana. Quem é humano não pode ferir o outro, porque, quando o faz, se sente ferido independente de qual arranjo familiar ele tenha vindo. O formador deve acompanhá-lo e instrui-lo para ser mais compassivo, benévolo, sensível à realidade das pessoas e da comunidade formativa, na qual está inserido. É importante que este se coloque no lugar do outro, se sensibilize com as alegrias, as dificuldades e os sofrimentos dos outros. De acordo com La Rosa (2014, p. 51), “entrar em contato com os próprios sentimentos é a base para desenvolver a empatia. Como alguém que despreza as próprias necessidades e sentimentos poderá compreender as necessidades dos outros?”

Nesse processo de humanização do formando, podem-se destacar duas coisas importantes e com comprovados resultados: o exercício da ternura e do elogio.

O exercício da ternura tem trazido resultados surpreendentes. Nos seminários e casas de formação tem-se percebido diariamente o quanto esse exercício é benéfico. Segundo La Rosa (2014, p. 65), “a ternura pertence à família do bom, da carícia, da gentileza, do sorriso, da aproximação, da bondade, do amor, dos anjos, do prazer, da doçura, da paz, da cumplicidade, da amizade, da fraternidade.”

A necessidade de ser amado é evidente em cada pessoa, independente ser esta, criança ou adulto. O formando tem necessidade de sentir que tem um lugar no mundo, que é apreciado pelo que ele é pelo que ele faz.

Outro exercício importante é o elogio. Percebe-se que as pessoas estão cada vez mais intolerantes e se desgastam valorizando os defeitos dos outros. E isso, dentro dos seminários e casa de formação, causa um clima desagradável e nocivo. Por isso, é importante que se faça a “terapia do elogio”. Elogiar faz bem, porque valoriza o outro e se aproxima do outro, além de motivar a pessoa para a vida.

O Papa Francisco diz que os “frutos do amor são também misericórdia e perdão” (cf. AL, n. 27). O formador, a exemplo de Jesus, tem que ser o homem do perdão e da misericórdia, sem se deixar levar pela manipulação, ingenuidade, omissão ou até mesmo fazer “vista grossa” diante de situações que devem ser corrigidas. É importante construir uma amizade saudável e respeitosa com o formando porque esta ajuda a criar uma empatia entre ambos e isto contribui para a humanização e formação. Anselm Grün (2012, p. 96) diz que a amizade “para muitos [...] é um apoio seguro na insegurança, um lar no desabrigo, uma pátria para o exilado.”

 

6 COMO TRABALHAR OS CANDIDATOS ORIUNDOS DE FAMÍLIAS DESESTRUTURADAS

 

É cada vez mais comum, acolher candidatos à vida sacerdotal oriundos de famílias sem estrutura familiar organizada e isso é muito desafiador para os formadores. Portanto algumas ferramentas e métodos são importantes neste processo formativo, tais como: o psicólogo, o diretor espiritual e confessor, professores, os momentos de formação e de vida comunitária.

Diante desta realidade conflituosa de diferentes “arranjos” familiares, a Igreja tem que usar meios para dar respaldo aos presbíteros que tem o ofício de formar novos padres. Por isso que na equipe de formação é indispensável a contribuição de especialistas em ciências psicológicas para trabalhar questões pendentes na vida dos formandos e/ou que nunca foram trabalhadas na vida desses jovens, e que precisam ser resolvidas para evitar futuros conflitos e danos no desempenho do ministério destes. É importante que o psicólogo faça uma visita pelo menos uma vez ao mês, à casa de formação, trabalhando terapia de grupo e avaliando individualmente os candidatos.

O diretor espiritual e o confessor, cada um com funções diferenciadas, mas que no conjunto da obra, desempenham um valoroso trabalho. O primeiro, tem a missão de orientar o candidato espiritualmente, apontando caminho que possa leva-lo a imitar o Bom Pastor, e corrigindo eventuais feridas causadas pela ausência de uma formação eficiente, frutos muitas vezes de uma desestrutura familiar. O segundo tem a missão de mostrar o valor do sacramento da confissão e a eficiência deste na vida do cristão.

Os professores desempenham um papel importante, pois são eles que tem a missão de estimular o candidato ao conhecimento às ciências sociais, geografia, história, cultura, economia, entre tantas outras, além de dar suporte aos formandos que não tiveram acesso a uma educação de base suficientemente adequada.

Além dos profissionais que foram mencionados, é imprescindível que nos seminários tenham momentos de formação extras, tais como: conhecimento da vida e estrutura da Igreja, do plano que rege a diocese na qual ele está inserido, conhecimento de documentos conciliares e dos Papas, documentos das conferencias episcopais, algumas noções de etiqueta, posturas, entre tantos outras coisas básicas, mas essenciais no cotidiano do presbítero.

Por fim, é necessário que o formando aprenda a disciplinar-se para a oração, aos horários da casa, seja inserido na vida comunitária, tais como, momento de lazer, esporte, oração, trabalho e outros.

 

7 CONCLUSÃO

 

O fato de reconhecer que houve mudanças na estrutura da família, é um significante passo. Como o barro nas mãos do oleiro, assim também é a missão do formador, de modelar os candidatos à vida religiosa, cultivando suas qualidades e capacidades e incentivando-os a serem pessoas que se colocam a disposição do Reino de Deus e dos irmãos, principalmente dos que mais necessitam desse anuncio do Reino (cf. VITÓRIO, 2008, p. 219).

A Igreja, através de seus documentos, como as Diretrizes para a Formação dos Presbíteros na Igreja no Brasil, Diretório da Pastoral Familiar, Pastores Dabo Vobis, entre tantas outras publicações de especialistas no assunto, querem ser uma fonte inspiradora para uma saudável formação, esboçando uma pedagogia que leve em consideração a realidade dos chamados à vida religiosa.

            Conclui-se que é necessário acolher e cuidar desses vocacionados e seminaristas vindos desses diversos arranjos de família e, a partir daí modelá-los, formá-los, corrigindo lacunas, consequências destas mudanças sociais, econômicas e políticas.

 

REFERÊNCIAS

 

BIBLIA Sagrada. Tradução CNBB. São Paulo: Paulus, 2001. 1653p.

 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretório da pastoral familiar. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2005. 279p. (Documentos da CNBB - 79).

 

C ONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil: texto aprovado no dia 10.5.2010 - 48ª Assembleia Geral. São Paulo: Paulinas, 2010. 247p. (Documentos da CNBB, 93).

 

CÓDIGO de direito canônico: codex iuris canonici. 14. ed. São Paulo: Loyola, 2001. 829p.

 

CONGREGAÇÃO PARA EDUCAÇÃO CATÓLICA. Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação de candidatos ao sacerdócio. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccatheduc/documents/rc_con_ccatheduc_doc_20080628_orientamenti_po.html>. Acesso em: 19 out. 2016.

 

FRANCISCO. Amoris laetitia: Exortação apostólica Pós-Sinodal do Santo Padre Francisco aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fiéis leigos sobre o amor na família. São Paulo: Paulus, 2016. 203p. (Magistério).

 

GRÜN, Anselm. Eu lhe desejo um amigo. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. 96p.

 

JOÃO PAULO II. Familiaris Consortio: exortação apostólica de sua santidade sobre a missão da família cristã no mundo de hoje. 7. ed. São Paulo: Paulinas, 1982. 154p. (A Voz do Papa, 100).

 

JOÃO PAULO II. Pastores Dabo Vobis: exortação apostólica pós-sinodal sobre a formação dos sacerdotes. São Paulo: Paulinas, 1992. 220p. (A Voz do Papa, 128).

 

LA ROSA, Deonira L. Viganó. Humanização da família. In: V.V.A. A. Livro da família. Porto Alegre: Editora Padre Réus, 2014.

 

MOREIRA, Raquel. A família do século XXI. In: V.V.A. A. Livro da família. Porto Alegre: Editora Padre Réus, 2014.

 

ORGANIZAÇÃO dos Seminários e Institutos Filosófico-Teológicos do Brasil. Reunião Ampliada da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada. 17 a 21 de outubro de 2016. Salvador: CNBB, 2016.

 

Paulo VI. Optatam Totius: decreto do Concílio do Vaticano II sobre a formação sacerdotal. In: CONCÍLIO VATICANO II. São Paulo: Paulinas, 1965. 28p. (A Voz do Papa, 35, Documentos Conciliares).

 

VITÓRIO, Jaldemir. A pedagogia da formação: reflexões para formadores na vida religiosa. São Paulo: Paulinas, 2008. 220p. (Carisma e Missão).